Um dos princípios que gosto muito no Jornalismo diz que “o leitor é princípio e fim”. Este fim parece ser observado por qualquer veículo de comunicação – o leitor ou a audiência a que se destina o noticiário. O corpo editorial do jornal ou da emissora, por meios de pesquisa ou pela sensibilidade e experiência, acredita estar noticiando o que esse leitor-fim deseja ou precisa.
Mas parece que o leitor como princípio nem sempre é levado em conta pelos órgãos de comunicação. Daí observar entre tantas páginas diárias que nem tudo que é produzido atende ou agrada àquele leitor-fim. Conclusão óbvia, dirá o leitor mais crítico… um público diversificado tem interesses e necessidades diferentes. Concordo. Só que há questões fundamentais que, por alguma razão, a imprensa não consegue ou não quer debater. Claro que isso dá boa discussão.
Mas se tratando de um jornal comunitário ou um jornal na comunidade? Para começar, qual a diferença?
O primeiro talvez seja menos viável nos dias de hoje, pelas características do mundo moderno. Um jornal comunitário nasce numa determinada comunidade, delimitada fisicamente por uma região, um bairro, ou por um grupo de pessoas com interesses comuns, por afinidade étnica ou religiosa, por exemplo. Nesse caso, o jornal é produzido e dirigido por membros dessa comunidade e, evidentemente, todos os assuntos ali abordados são de interesse desse agrupamento.
Mais que informar, um jornal comunitário tem a finalidade de integrar e mobilizar essa comunidade em torno de suas bandeiras e reivindicações. Em que o mundo moderno pode limitar essas práticas? Ora, a rotina ditada por uma sociedade capitalista impõe ao cidadão muito mais tempo para a produção e infinitamente menor disponibilidade para o lazer e o tempo livre. Dessa forma, as poucas iniciativas nesse caminho restringem-se a poucas almas voluntariosas, nem sempre reconhecidas e valorizadas, além de conseguir fazer circular um produto artesanal pouco atraente diante de tantos jornais comerciais.
O jornal na (da) comunidade, como estou chamando, parece ser uma alternativa ousada. Seria um veículo viabilizado por um grupo comercial, mas que tenha como proposta, como projeto, ter o leitor como princípio e fim. Nesse caso, também podemos estabelecer alguns limites físicos, como atender a alguns bairros mais interessados em recebê-lo e em participar da sua produção. O corpo editorial terá suas atenções voltadas para a região em foco, intermediadas por “correspondentes voluntários” daquele grupo social. A linha editorial, portanto, será definida pelo conjunto dos profissionais de jornalismo e dos correspondentes da comunidade. Este pode ser o jornal que a comunidade se vê nele, dialoga com ele.
E o que se publicar num jornal na (da) comunidade? Os assuntos que nunca ou dificilmente são publicados nos jornais de grande circulação. A professora que vem desenvolvendo uma metodologia inovadora em sua escola; como também o aluno que se destacou com seu projeto na feira de ciências do colégio. A história do alfaiate que trabalha há 40 anos no bairro, ou as novas técnicas adotadas na horta comunitária. São alguns temas que só interessam àquelas pessoas, que querem conhecer mais sobre suas próprias vidas, que gostam de ser reconhecidas e valorizadas. Entre outras coisas, um jornal na (da) comunidade pode ser um instrumento para a população apresentar suas reivindicações, reclamar seus direitos, levantar suas bandeiras, e dizer: EU EXISTO!
Jorge Kanehide Ijuim
Jornalista e Professor de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul





